Crónicas de Viagens

Neste espaço deixarei as minhas impressões sobre as viagens que já fiz e que vier a fazer.

23.7.07

VIAGEM A CUBA

Circuito por Havana

Cuba era um destino turístico há muito almejado e depois de uma tentativa falhada há alguns anos, no dia 24 de Abril de 2007 partimos do aeroporto Sá Carneiro, na Ibéria, com escala em Madrid, para o desejado destino.
Chegados ao aeroporto de Havana e após as formalidades de desembarque, bastante demoradas e algo enervantes depois de uma viagem de nove horas e meia, a Mercedes – a nossa guia – e o Júlio – o nosso condutor – conduziram-nos ao Hotel Nacional, ao qual chegámos vinte minutos depois. Fiquei bem impressionada com o hotel logo no primeiro encontro: um clássico muito agradável. No segundo dia de estadia tivemos o prazer de assistir a aí a um espectáculo de “music-hall” fantástico (Já assisti a vários do género, em lugares de renome, mas nenhum como esse).
No dia seguinte, logo às nove horas, um “Tour” por Havana iniciava o circuito, que se iria estender a algumas das regiões de Cuba.
Angústia, tristeza, incredulidade foi o misto de sentimentos que me invadiram nesse primeiro contacto com a cidade. Senti um aperto na alma naquele primeiro encontro, logo ali, ao começar, na marginal. Levava uma fasquia demasiado elevada comigo. Todos me diziam maravilhas de Cuba. Todos me falavam da sua beleza desde há muitos anos, o que foi despertando em mim esse enorme desejo de visitar aquele país. O primeiro impacto foi desastroso. Não estava preparada. A beleza, a riqueza, a imponência estão lá, nas fachadas dos seus inúmeros edifícios, que o tempo e o bloqueio não levaram, ainda, completamente. Mas uma enormíssima percentagem precisa de ser restaurada. Já. Precisa de obras imediatas de recuperação, para que não se perca completamente todo aquele património arquitectónico.
Património da Humanidade desde 1982 começa-se a recuperar a cidade antiga com o apoio de Espanha e da UNESCO; e a “Plaza Vieja”, que um cartaz exibe completamente destruída, está praticamente recuperada. Mas há ainda muito para fazer. Precisa de muito dinheiro para recuperar todo aquele enorme património de um passado rico, que o tempo, um satânico bloqueio, e… sei lá que mais, foram arruinando.
Mas tem, ainda, (ou já tem de novo) edifícios muito bonitos e coisas muito bonitas e ricas nos seus museus e igrejas, que se expõem sem grandes entraves (em alguns sítios paga-se uma pequena quantia para fotografar), às objectivas das nossas máquinas fotográficas e de filmar. E um deles é o Palácio dos Capitães Generais, que é agora Museu da Cidade de Havana. O edifício é bonito e o recheio também. E o trono, que nunca foi ocupado, porque os reis espanhóis não chegaram a visitar a colónia, lá está na denominada Sala do Trono. A sala das bandeiras, com muitas dezenas de bandeiras (algumas tão velhinhas, que se desfarão ao menor toque, razão pela qual a porta se mantém sempre fechada) é também interessante. Mas tem diversas outras salas com obras de arte, mobiliário e cerâmicas bonitas e de bastante valor.
Também o Seminário de Havana é um belo edifício antigo. E a capela, que precede a entrada na catedral pelo lado do Seminário, é lindíssima. Bem como a Catedral que é também muitíssimo bonita e está muito bem cuidada. O povo cubano é maioritariamente católico. E desde a visita do Papa professa a sua religião livremente. Antes, mais timidamente, na opinião da Mercedes, praticava-a também. Agora pratica-a abertamente, embora, como noutros sítios, só os mais velhos e as crianças o façam.
Misturadas com a religião católica, praticam-se também religiões trazidas de África pelos antigos escravos, que vieram para a cultura da cana-de-açúcar, nomeadamente a dos Orixás.
A Padroeira de Cuba é a Virgem Santíssima do Cobre ou a Virgem da Caridade do Cobre.
Havana, a exemplo do Rio de Janeiro e de outros lugares no Mundo, tem também um Cristo: «El Cristo de La Habana». Fica à entrada do porto, perto da Fortaleza e é diferente do usual. Está a abençoar a cidade. Tem uma mão no peito e outra a abençoar. É em mármore de Carrara, feito em Itália pela escultora cubana Gilma Madera. Mas há outro Cristo em Havana. Também diferente dos Cristos habituais. É um Cristo sentado e está no Museu da cidade.

Há em Havana alguns locais carismáticos ligados a nomes famosos da Música, da Literatura e outros, referenciado pelos guias aos turistas. Nomeadamente o restaurante, frequentado habitualmente pelo escritor norte-americano Ernest Hemingway, Prémio Nobel da Literatura, que aí viveu muitos anos: o “La Zaragolana”. Outro desses sítios carismáticos pela fama dos seus antigos frequentadores é LA BODEGUITA DEL MEDIO. As paredes estão repletas de assinaturas e as mesas dos famosos, que a frequentaram, entre as quais a de Nat King Cole, assinaladas com uma placa.
Como muitas outras cidades e sítios no mundo, Havana, tem também figuras e curiosidades interessantes para dar a conhecer. E junto ao Mosteiro de S. Francisco há o monumento à Dignidade, intitulado “O Homem de Paris”, que conta a história de um homem, que andava por Havana e ninguém sabia quem era, nem de onde viera. Sem casa nem família, sempre limpo e arranjado, gentil com as mulheres a quem cedia o passeio, oferecia uma flor, dizia palavras gentis… Nunca pedia nada. Aceitava o que lhe davam e disso vivia. Foi internado pelo Governo num manicómio e, parece… que foi «recuperado».
E agora uma curiosidade: em frente à Universidade de Havana há uma “ceiba” ou árvore da sumaúma, no meio da rua, com um muro à volta, porque em Cuba ninguém derruba uma sumaumeira! A sumaumeira é uma árvore mística. Diz-se que a vida correrá mal a quem derrubar uma «ceiba».
Na praça mais antiga de Havana, a Praça das Armas, há uma que assinala o sítio onde foi rezada a 1ª missa, na cidade.
E já que falámos de Universidade, poderemos falar da educação, que é gratuita para todos, incluindo os estudos universitários. Quem quiser estudar não precisa de ter dinheiro. Basta que demonstre capacidades intelectuais para o fazer. Só o transporte para as escolas e a alimentação, para a qual a família terá de pagar uma quota, é por conta das famílias. Mas em Cuba, qualquer transporte serve. E tivemos ocasião de passar por uma carrinha de “caixa aberta” carregada de estudantes de regresso a casa.
Todos os transportes são possíveis, em Cuba, a circularem nas ruas, nas estradas e nas auto-estradas. E há uns carrinhos de três rodas, que levam duas pessoas e o condutor e se vêem por toda a cidade de Havana a transportar pessoas de um ponto para outro, muito engraçados, que dão um colorido especial à cidade e ao país. Encontrámo-los também noutras cidades. São os Coco Táxis. Há outro tipo de táxis: carros de todos os tempos e marcas; mas estes são realmente engraçados e especiais. Nunca os tinha visto antes, em parte alguma. São uma espécie de triciclos, abertos, coloridos, pequenos e económicos – qualidade essencial de qualquer meio de transporte, não apenas em Cuba, mas muito importante em Cuba. O combustível é caro, há pouco, e cada família não pode gastar o que quer (Apesar de haver petróleo em Cuba. Pouco. Diz-se. Mas estão três países a explorá-lo: China, Canadá e Venezuela. Sendo pouco não se entende o interesse desses países na sua exploração. Mas… Eles o saberão!), e o Governo aconselha a que se dê boleia. Dar boleia é um acto solidário e quase uma obrigação. E nós fomos beneficiados por essa medida quando, avariado o nosso autocarro, fomos transportados ao aeroporto pelo primeiro que ali chegou, que nem pertencia à mesma Companhia. O condutor demonstrou bem o aborrecimento que aquela viagem inesperada, ao fim do dia, lhe causava, mas não deixou de a fazer…

Falávamos da educação, que é gratuita como já disse, e também a saúde o é. E pelo que ouvi à guia, deduzo que se aposta bastante na medicina preventiva. Os médicos saem à rua e fazem rastreios à população, tratando os que precisam de ser tratados a tempo e horas. Não há listas de espera. Mas se precisarem de ser internados, as coisas complicam-se. Os hospitais são pobres e os edifícios velhos, com vidros partidos e persianas desconchavadas. O paciente terá de levar lençóis e tudo o necessário para ter algum conforto durante a sua estada no hospital.
Também a alimentação das famílias é subsidiada. O governo distribui umas senhas pelas famílias, para a obtenção de um mínimo essencial para cada família. Quem quiser algo acima disso terá de o pagar bem mais caro. Assim, pelo menos, não há fome. Não há verdadeira fome em Cuba. Os cubanos têm um ar prazenteiro, simpático, saudável e digno. Gostei dos cubanos

Por último apenas um pequeno apontamento sobre a Praça da Revolução, na Havana moderna, à volta da qual se concentra quase todo o poder político e económico de Cuba e onde se fazem todas as celebrações. É uma praça ampla, com capacidade para conter um milhão de pessoas (número esperado para daí a dois dias, nas comemorações do Dia 1º de Maio), sem zonas sombreadas, razão pela qual – informação da guia – há a preocupação de marcar as celebrações para bem cedo, antes que o sol aperte.
Jeracina Gonçalves