21.12.11
17.1.11
O MENINO DA FEIRINHA
Nessa manhã de um sábado de Agosto, decorria o ano de 92, acordei no vigésimo andar do meu quarto de hotel, na Avenida de Copacabana, no Rio de Janeiro, e corri para a varanda curiosa com o panorama que dali pudesse usufruir. Chegáramos muito tarde no dia anterior e não tivera oportunidade de abrir a cortina para olhar fora da janela. Como nunca na minha vida estivera num andar tão elevado, estava impaciente por observar o panorama.
Fiquei deslumbrada com a vista maravilhosa que dali me foi dado desfrutar: a praia, à direita, imensa, fervilhava de vida nessa manhã de Agosto, com jovens de pele tostada e corpos atléticos que jogavam futebol ou voleibol, outros corriam à beirinha da água, que, de mansinho, vinha afagar a areia branca, outros expunham os corpos seminus aos raios ardentes do sol tropical sobre garridas toalhas estendidas na areia e havia ainda aqueles que, também na praia, junto à avenida, do lado oposto à linha de água, sentados em cadeiras de lona ou de madeira à volta de pequenas mesas sombreadas por tufos de palmeiras a lembrar refrescantes e apetecidos oásis, tomavam bebidas refrescantes: água de coco e outras. A enorme praia curvava em forma de foice sobre a baía e, ao fundo, fechava-se num morro. Sobre a curva da baía, um pouco à minha direita, o Pão de Açúcar erguia-se a subir para o céu, altivo e misterioso, envolvido em pedaços de nuvens brancas e leves; em frente, outro morro; à esquerda deste e a trepar pela encosta tal qual cascata de S. João, as casinhas da favela; mais à esquerda um outro morro, enorme, barrava-me toda a visibilidade para esse lado; em baixo, aos pés do hotel, na ampla Avenida Atlântica paralela à praia, fervilhavam transportes, que circulavam nos dois sentidos, como formiguinhas diligentes a caminho do formigueiro. Ao longo e ao centro desta, estendia-se o “Calçadão” separando as duas faixas de rodagens, e outro de cada lado da avenida, bem sombreados por árvores frondosas. Aconchegado entre a espaçosa avenida e o morro descansava o casario.
A minha atenção fixou-se com mais acuidade na animação que por entre os rasgões abertos na ramagem do arvoredo, vislumbrava no “Calçadão”.
Tanto no central como nos dois laterais pressentia pequenas tendinhas, que do alto daquele vigésimo andar pareciam pequeníssimos cogumelos a furar da terra e me puseram as orelhas em pé: uma feira. Adoro feiras. Feiras populares, espontâneas, onde, por norma, aparece uma enorme variedade de artigos de artesanato. Gosto sobretudo de apreciar artesanato que, a meu ver, é uma clara manifestação da cultura de um povo. Através dele podemos conhecer um pouco da história desse mesmo povo. E, sem demoras, corri a arranjar-me, desci até à rua e fiquei deliciada com a enorme quantidade de objectos expostos, desde garridíssimas toalhas de praia, a vestidos de lantejoulas, quadros a óleo, bijutarias feitas com pedras semipreciosas, rendas, bordados… Um mundo de cor e de arte ali exposto sob o meu olhar deliciado. Havia um pouco de tudo para apreciar e comprar. Todo o tipo de artesanato, e não só, desde a artigos sofisticadíssimos, como vestidos de noite e carteiras de lantejoilas, até às coisas simples, feitas com materiais vulgaríssimos e reciclados.
Tanto no central como nos dois laterais pressentia pequenas tendinhas, que do alto daquele vigésimo andar pareciam pequeníssimos cogumelos a furar da terra e me puseram as orelhas em pé: uma feira. Adoro feiras. Feiras populares, espontâneas, onde, por norma, aparece uma enorme variedade de artigos de artesanato. Gosto sobretudo de apreciar artesanato que, a meu ver, é uma clara manifestação da cultura de um povo. Através dele podemos conhecer um pouco da história desse mesmo povo. E, sem demoras, corri a arranjar-me, desci até à rua e fiquei deliciada com a enorme quantidade de objectos expostos, desde garridíssimas toalhas de praia, a vestidos de lantejoulas, quadros a óleo, bijutarias feitas com pedras semipreciosas, rendas, bordados… Um mundo de cor e de arte ali exposto sob o meu olhar deliciado. Havia um pouco de tudo para apreciar e comprar. Todo o tipo de artesanato, e não só, desde a artigos sofisticadíssimos, como vestidos de noite e carteiras de lantejoilas, até às coisas simples, feitas com materiais vulgaríssimos e reciclados.
Deambulava assim, encantada, por entre as inúmeras tendinhas a apreciar aquelas coisas lindas na forma e no colorido, parando aqui e além. Caminhava descontraída e sem preças, perguntando preços, materiais usados… Tudo. E todas as minhas perguntas eram satisfeitas de uma forma afável e simpática. Até que a dado momento aproxima-se um rapazinho franzino, moreno, de grandes olhos negros, cabelos escuros e encaracolados, carregando no braço um enorme cesto cheio de pulseirinhas feitas em linha – daquelas muito em voga nos anos oitenta/noventa e, nessa época, usadas por quase todos os jovens – e diz:
-Compre-me uma pulseirinha.
-Quanto custa?
-Duzentos cruzeiros, e posso gravar-lhe o nome se quiser.
-Sabes gravar o nome nestas pulseirinhas? Mas tu és ainda muito novo. Não és tu quem as faz, pois não?
-Sou, sim, a minha mãe ensinou-me.
-Quantos anos tens?
-Tenho nove.
-E com nove anos já sabes fazer e gravar estas pulseirinhas tão bonitas?! – Perguntei sinceramente admirada.
- Sei sim senhora. Já fiz muitas.
-São muito bonitas. Dou-te os meus parabéns. Quero, sim, quero que me graves uma pulseirinha para eu levar para Portugal. Disse-lhe o nome que pretendia ver gravado na pulseira, e perguntei:
-Como te chamas?
- Paulo.
-Andas por aqui sozinho a vender as essas pulseirinhas, Paulo?
-Não, a minha mãe está ali, naquela tenda, disse apontando para uma tenda pequenina, de roupa indiana, pequenas bijutarias, chapéus, saias…, coisas pequeninas, modestas, simples, mas o produto da venda dessas pequeninas coisas ajudava aquela mulher, viúva, a sustentar-se e a sustentar os três filhos: o Paulo de nove anos, o Pedro de onze e uma menina de sete.
Todas estas coisas me foram contadas pelo Paulo, enquanto se sentava num pequeno banquinho de madeira e começava a trabalhar.
Deixei-o e continuei o meu passeio por entre as tendazinhas da feira, fascinada com a profusão de coisas simples e ingénuas, muitas; outras demonstrando grande talento artístico e criativo. Algum tempo depois regressei junto do Paulo.
A pulseira estava pronta. Lá estava o nome que lhe pedira para gravar. Um pouco imperfeito, mas paguei aquele trabalho com um enorme prazer. Foi o trabalho de uma criança de nove anos, que, no “Calçadão” da Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, trabalhava e vendia o produto do seu trabalho, para ajudar a mãe, viúva, a sustentá-lo e aos seus dois irmãos.
Jeracina Gonçalves
Etiquetas: CRÓNICAS DE VIAGENS
18.12.10
17.2.10
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25.11.09
DE MOSCOVO A S.PETERSBURGO
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A água é um elemento que me emociona e atrai, acalma e adoça a sensibilidade, permeabiliza a mente e torna o meu espírito mais ávido de conhecimento, mais atento, mais perscrutador.
A água é um elemento que me emociona e atrai, acalma e adoça a sensibilidade, permeabiliza a mente e torna o meu espírito mais ávido de conhecimento, mais atento, mais perscrutador. Uma viagem de barco é sempre, para mim, um grande prazer, do qual pude usufruir este ano, em Agosto.
Durante dez dias percorri rios, lagos e canais da Rússia, desde Moscovo a S. Petersburgo, visitando ao longo do percurso outras cidades menores, mas também interessantes pela memória guardada em alguns dos seus monumentos, num barco sem luxo nem grandes instalações de convívio e ocupação dos tempos livres, mas agradável, apesar disso, com uma tripulação jovem, bonita, simpática e proporcionou-nos algumas noites musicais muito boas, por músicos de grande qualidade: um pianista, um violinista, um guitarrista e uma cantora lírica. O guitarrista, um jovem de 24 anos, ganhador de vários concursos internacionais - um metro e noventa de música, com a guitarra integrada no próprio corpo - era fantástico! Todo ele era música expressa no olhar, nas faces, na expressão corporal, quando dedilhava a guitarra.
Antes de iniciarmos a navegação pelos canais dos Czares, quedámo-nos três dias em Moscovo, cidade nas margens do rio Moscova, que lhe deu o nome, e aí recebe as águas o rio Yauza, um dos seus afluentes, para uma visita guiada a essa monumental e lindíssima capital, pejada de excelsas catedrais, magníficos palácios, imponentes edifícios, lindas pontes, tal como a que sai no enfiamento da Catedral de Cristo Salvador, na alta margem do dito rio Moscova (Catedral lindíssima, que marca a vitória sobre Napoleão Bonaparte na guerra de 1812. Tem-se daí uma vista extraordinária sobre a cidade e o rio.), grandes e lindíssimas praças, fontes, estações de Metro - autênticos salões palacianos -, parques e jardins bem tratados e floridos, sem um papel no chão ou qualquer outra espécie de lixo. Assim como nas ruas; nem mesmo nas passagens subterrâneas. E também não há paredes pichadas.
A Praça Vermelha (minha velha conhecida, através da televisão, com as grandes paradas militares de antigamente), quando estamos lá no centro, faz-nos sentir a vastidão e a imponência do seu espaço, e reduz-nos rapidamente à nossa insignificância volumétrica. É de forma rectangular e, de um dos lados mais curtos do rectângulo, tem a Catedral de S. Basílio - agora Museu - mandada construir por
Ivan, o Terrível, que no final mandou arrancar os olhos ao seu arquitecto para que não pudesse construir mais nada parecido;
no lado oposto fica o Museu de História e outra catedral, de que não recordo o nome, demolida na época comunista e reconstruída já no tempo de Putin (Desse lado há duas passagens em forma de arco sob o edifício, que fazem a ligação para a vasta Praça Manézhnaia ou Picadeiro, onde antigamente faziam a revista às tropas e hoje são feitas exposições.); do outro lado fica a imponente muralha do Kremlin e o Mausoléu de Lenine; e, do outro, as Galerias Comerciais Gum, que ocupam um edifício magnífico também, onde estão representadas as marcas internacionais mais prestigiadas.
No interior das muralhas encimadas por dezoito torres de combate, o Kremlin - a parte mais antiga de Moscovo -, é um conjunto arquitectónico admirável, com majestosos palácios, catedrais (sete), entre elas a Catedral da Dormição (onde foram coroados Czares e Imperadores russos), jardins... Aí se encontra também o Palácio do Governo Russo.
Ivan, o Terrível, que no final mandou arrancar os olhos ao seu arquitecto para que não pudesse construir mais nada parecido;
no lado oposto fica o Museu de História e outra catedral, de que não recordo o nome, demolida na época comunista e reconstruída já no tempo de Putin (Desse lado há duas passagens em forma de arco sob o edifício, que fazem a ligação para a vasta Praça Manézhnaia ou Picadeiro, onde antigamente faziam a revista às tropas e hoje são feitas exposições.); do outro lado fica a imponente muralha do Kremlin e o Mausoléu de Lenine; e, do outro, as Galerias Comerciais Gum, que ocupam um edifício magnífico também, onde estão representadas as marcas internacionais mais prestigiadas. Muito, e muito há para dizer sobre Moscovo, do que vi e do que gostei de ver, mas há que avançar para darmos início à nossa navegação por rios, canais e lagos da Rússia, vencendo um total de 18 eclusas, atracando, como disse, a povoações menores mas também interessantes, nas margens dos rios, canais e lagos que percorremos. Tais como Uglich, uma das cidades mais antigas da Rússia nas margens do rio Volga, datada do séc. X, onde foi assassinado Dimitry, neto de Ivan o Terrível e herdeiro do trono de Moscovo, durante uma visita que fizera à cidade em 1591. A sua morte provocou uma longa guerra civil. E, para lembrar esses tempos de grande violência, foi construída no local a Igreja de São Dimitri, que visitámos.
Assistimos nessa cidade a um Coro Gregoriano constituído por cinco vozes, que classifico de Divino!
Outra cidade a que aportámos, Yaroslavl, já foi a segunda cidade russa e fica na junção dos rios Volga e Kotorosl. Hoje é um razoável porto fluvial com «um centro histórico importante pelas suas igrejas seiscentistas», que são Património Mundial. O Mosteiro de Spassky, nessa cidade, é dos mais antigos da região.
Em Goritsy, nas margens do lago Branco, visitámos o Mosteiro da Ressurreição ou de S. Cirilo, fundado por S. Cirilo em obediência a uma aparição da Virgem. Beneficiador dos favores e influência dos czares, o Mosteiro atingiu poder e riqueza, e durante a guerra que se seguiu à revolução de 1917 tomou o partido do exército branco. Os bolcheviques mataram o prior, e o Mosteiro ficou sob o controle do Governo, que aí instalou em 1923 um Museu de Estudos Regionais, transformado no Museu de História em 1969, que aí funciona hoje.
Kizhi, uma ilha do Lago Onega, «cercada por outras 5000 ilhas, algumas muito pequenas, outras com mais de 35Km de comprimento» tem um conjunto de igrejas, capelas e casas de madeira, muito bonito. Merece bem uma visita.
Uma das igrejas, a da Transfiguração - igreja de Verão - construída no ano de 1714, tem 22 cúpulas e foi totalmente construída sem pregos. Ao lado desta, há a Igreja da Intercessão - igreja de Inverno -, que é mais pequena. Kizhi é um lindíssimo e invulgar museu ao ar livre.
Em Mandrogi, uma aldeia turística a 270 Km de S Petersburgo, nas margens do rio Svir - rio que começa no lago Onega e termina no lago Ladoga (o maior da Europa), vivem pouco mais de uma centena de pessoas permanentemente, mas são muitas e muitas mais as que aí vão, todos os dias, para trabalhar. Pode encontrar-se aí todo o tipo de artesanato e artesãos a trabalharem diferentes materiais, em casas de uma arquitectura característica - vistosa e apelativa -, em madeira. Matrushkas, rendas, cerâmicas, jóias em âmbar e outros materiais…, tudo aí se pode ver fazer e comprar.
Tem um hotel, um museu da vodka, um zoo, cavalos, pesca, trilhos para caminhar e outras «ferramentas» de apoio ao turista que queira libertar-se do stress da grande cidade e viver em comunhão com a natureza por algum tempo. É um local muito aprazível e calmante. Bom para descansar.
Estamos a chegar ao fim do nosso Cruzeiro. A próxima etapa levar-nos-á a S. Petersburgo, cidade de uma magnificência extraordinária. Mas este texto parece-me já bastante longo. S. Petersburgo ficará para um próximo.
Jeracina Gonçalves
20.10.08
SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DE APARECIDA - BALUGÃES





